terça-feira, 17 de maio de 2011

Transtorno da falta de contato com a natureza

Projeto de Educação Ambiental do Instituto Rã-bugio: Elza com estudantes nas atividades ao ar livre na trilha do Centro Interpretativo da Mata Atlântica, em Jaraguá do Sul (SC)


Transtorno da falta de contato com a Natureza (Nature Deficit Disorder), é um termo criado pelo escritor e jornalista norte-americano Richard Louv em seu livro de 2005, Last Child in the Woods (Tradução: A Última Criança nas Florestas). Refere-se à alegada tendência de as crianças terem cada vez menos contato com a natureza, resultando em uma ampla gama de problemas de comportamento. Esta doença não é ainda reconhecida em qualquer um dos manuais de medicina de transtornos mentais, como o CID-10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) ou o DSM-IV (Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Transtornos Mentais) nem é parte da proposta de revisão deste manual

Louv alega que as causas para o fenômeno incluem o medo dos pais, acesso restrito às áreas naturais, e da atração pela TV ou computador. A pesquisa recente tem gerado um contraste maior entre a diminuição do número de visitas aos Parques Nacionais nos Estados Unidos e aumento do consumo de meios eletrônicos por crianças.

Richard Louv passou 10 anos viajando pelos EUA entrevistando e conversando com pais e filhos, tanto em áreas rurais e urbanas, sobre suas experiências na natureza. Ele argumenta que a cobertura da mídia sensacionalista e os pais paranóicos têm assustado as crianças de freqüentarem áreas naturais (matas, campos...), enquanto promove uma litigiosa cultura do medo que favorece a prática de esportes seguros com regras ao invés de brincadeiras criativas.

Ao reconhecer essas tendências, algumas pessoas argumentam que os seres humanos têm um gosto instintivo para a natureza, a hipótese da biofilia, e adotam certas medidas para passar mais tempo ao ar livre, por exemplo, em educação ao ar livre, ou através do envio de crianças a jardins da infância (Forest Kindergarden) ou escolas (Forest Schools) na floresta, que são escolas especiais criadas nos Estados Unidos e países da Europa, onde as crianças ou estudantes brincam e aprendem do meio de uma mata preservada ou bosque utilizando os elementos que encontram na nestes ambientes. Talvez seja uma coincidência que os adeptos do movimento Slow Parenting (pais sem pressa)* enviam suas crianças para educação em ambientes naturais, ao invés de mantê-los dentro de casa, como parte de um estilo livre de educar os filhos

*O movimento Slow Parenting (pais sem pressa) defende que “menos é mais”: menos coisas, menos actividades, menos pressa, menos pressão, menos expectativas. Mais tempo para crescer fará as crianças mais felizes. É um estilo de educação dos pais em que poucas atividades são organizadas para as crianças. Em vez disso, elas são autorizadas a explorar o mundo ao seu próprio ritmo. O movimento Slow Parenting tem o objetivo de permitir que as crianças sejam felizes e fiquem satisfeitas com suas próprias realizações, mesmo que isto não pode torná-las mais ricas ou mais famosas. Os pais das crianças de hoje são frequentemente encorajados a repassar o melhor possível de suas experiências de infância, para garantir a estas crianças o sucesso e felicidade na vida adulta.

A natureza não é apenas para ser encontrado em parques nacionais. O capítulo "Jardim do Eden em um terreno baldio", de Robert M. Pyle (página 305)* enfatiza a possibilidade de exploração e fascínio em pequenas áreas que podem ser lotes desocupados de terrenos com vegetação nativa, e se alegra com as 30.000 lotes sem construção em Detroit, que surgem devido à decadência no centro da cidade.

*Children and Nature: Psychological, Sociocultural, and Evolutionary Investigations (2002). Eds. P. Kahn; S. Kellert. MIT Press. Essay "Eden in a vacant lot: special places, species, and kids in the neighborhood of life"


Causas

Os pais estão mantendo as crianças dentro de casa, a fim de mantê-los a salvo de perigo. Richard Louv acredita que podemos estar protegendo exageradamente as crianças de tal forma que se tornou um problema e prejudica a capacidade da criança de manter contato com a natureza. O crescente temor dos pais de "perigo desconhecido", que é fortemente alimentada pelos meios de comunicação mantém as crianças dentro de casa e no computador ao invés de explorar ao ar livre. Louv acredita que esta pode ser a causa principal de transtorno da falta de contato com a natureza, uma vez que os pais têm um forte controle e influência sobre a vida de seus filhos.

Perda de paisagem natural no bairro ou cidade de uma criança. Muitos parques e reservas naturais têm acesso restrito e placas de advertência "não ande fora da trilha". Ambientalistas e educadores ainda adicionam a restrição ao dizerem às crianças "olhe, mas não toque". Enquanto eles estão protegendo o ambiente natural, Louv questiona o custo dessa proteção na relação as nossas crianças com a natureza

Aumento de atrativos para passar mais tempo dentro de casa. Com o advento do computador, videogames e televisão as crianças têm mais e mais motivos para ficar dentro de casa, "A criança norte-americana gasta em média gasta 44 horas por semana com mídias eletrônicas"

Efeitos

As crianças têm limitado respeito ao ambiente natural mais próximo. Louv diz que os efeitos do transtorno da falta de contato com a natureza para os nossos filhos será um problema ainda maior no futuro. "Um ritmo crescente nas últimas três décadas, aproximadamente, de uma rápida perda de contado das crianças com a natureza tem profundas implicações, não só para a saúde das gerações futuras, mas para a saúde da própria Terra." Os efeitos transtorno da falta de contato com a natureza poderia levar a primeira geração em risco de ter uma expectativa de vida menor do que seus pais.

Podem se desenvolver transtornos da atenção e depressão. "É um problema porque as crianças que não tiveram um contato com a natureza parecem mais propensas à depressão, ansiedade e problemas da falta de atenção". Louv sugere que ter atividade ao ar livre em contato com a natureza e ficar na calma e tranquilidade pode ajudar muito. De acordo com um estudo da Universidade de Illinois, a interação com a natureza tem provado reduzir os sintomas dos transtornos da atenção e depressão em crianças. Segundo a pesquisa, "No geral, nossos resultados indicam que a exposição a ambientes naturais nas atividades comuns após as aulas ou finais de semana pode ser muito eficaz na redução dos sintomas de déficit de atenção em crianças." A teoria da restauração da atenção desenvolve esta idéia , tanto na recuperação a curto prazo de suas habilidades, como na de longo prazo para lidar com o stress e adversidades.

Seguindo o desenvolvimento dos transtornos da atenção e depressão e transtornos de humor, notas mais baixas na escola também parecem estar relacionados com o transtorno da falta de contato com a natureza. Louv afirma que estudos realizados na Califórnia e na maior parte dos Estados Unidos mostram que os estudantes das escolas que utilizam as salas de aula ao ar livre e outras formas de educação utilizando experiências com a natureza apresentaram significativamente melhor desempenho em estudos sociais, ciências, artes, linguagem e matemática. Fonte: Artigo Orion Magazine March/April 2007

A obesidade infantil tem se tornado um problema crescente. Cerca de 9 milhões de crianças (6-11 anos) estão com sobrepeso ou obesos. O Instituto de Medicina afirma que nos últimos 30 anos, a obesidade infantil mais do que duplicou para os adolescentes e mais do que triplicou para crianças de 6-11 anos. Fonte: National Environmental Education Foundation

• Em uma entrevista publicada na revista Public School Insight, Louv citou alguns efeitos positivos do tratamento de transtorno da falta de contato com a natureza: “Tudo a partir de um efeito positivo sobre a atenção estendendo para redução do stress a criatividade, o desenvolvimento cognitivo e seu sentimento de admiração e de conexão com a Terra. "

A ONG No Child Left Inside Coalition (Coalizão “Não deixe as crianças dentro de casa") trabalha para levar as crianças para atividades ao ar livre e de aprendizagem ativa. A ONG espera resolver o problema do transtorno da falta de contato com a natureza. Eles agora estão trabalhando para aprovar uma lei nos Estados Unidos que aumentaria a educação ambiental nas escolas. A ONG defende que o problema do transtorno da falta de contato com a natureza poderia ser amenizado por "despertando o interesse do estudante para atividades ao ar livre" e estimulando-os a explorar o mundo natural por conta própria.

16 comentários:

rudifotografia disse...

Muito interessante este artigo.
A situação no Brasil não é diferente. Nossas crianças estão cada vez mais confinadas em casa, presos a computadores, megulhados em redes sociais, jogos eletrônicos, em fim, cada vez mais distantes do meio natural. Por outro lado, também temos exemplos de iniciativas que buscam resgatar e estimular o gosto pela natureza. Exemplo notável de iniciativa louvável é o próprio Instituto Rã Bugio que já possibilitou a milhares de crianças uma interação saudável com a natureza através de suas trilhas interpretativas. Pelo menos as crianças que já estiveram visitando as trilhas do Instituto Rã Bugio estão livres deste transtorno graças ao trabalho incansável do Germano, da Elza e dos demais envolvidos neste admirável projeto, digno do nosso aplauzo e reconhecimento. Americanos e brasileiros deveriam copiar este bem sucedido exemplo.

Biodiversidade Catarinense disse...

Também acho muito interessante esse artigo.
Na escola onde estou estagiando, são poucas as crianças que gostam e se envolvem com a matéria de ciências, inclusive muitas têm nojo e medo das animais sem nem mesmo conhecê-los, por exemplo dos pobres e indefesos sapos.
São poucos que se dispõe a tocar um sapo, acredito que isso seja uma "aculturação" passada dos pais, aliado à essa aisência de contato com a natureza.
Acho que os maiores vilões dessa história sejam a televisão e principalmente a internet!
Parabéns pelo trabalho que vocês exercem, continuem assim!

GEASA disse...

Quando vejo uma propaganda de sabonete que mata 99% das bactérias fico abismado vendo como tem se tornado um nicho de mercado essa neurose do contato com o ambiente natural.

Lendo esse artigo, lembrei na hora de tais propagandas concretando a neurose.

Legal o artigo

Luana disse...

Realmente a situação do mundo atualmente nos põe como indivíduos cada vez mais isolados e distantes do ambiente natural. A exemplo disso estão as redes sociais. Elas se tornaram populares porque as pessoas têm cada vez menos tempo para se encontrarem e as redes permitem que indivíduos com problemas de socialização consigam interagir com o mundo. Só que esse mundo não é real!
E infelizmente as pessoas vão cada vez menos a locais com natureza, até porque essas áreas estão se tornando escassas e em alguns casos, perigosas se estiverem próximas a periferias. Portanto é essencial esse contato com a natureza, pois nos faz sentir bem e vivos.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Tema interessante! Eu mesmo experimentei coisas muito boas em termos psíquicos quando tive mais cotnatos com a natureza através de caminhadas, momentos em que podia pensar mais e refletir sorbe a Vida. Vou divulgar no facebook!

Mariane Trichês Pezente disse...

Adorei esse tema. Sou colunista de um jornal da minha região e estava pesquisando um tema para meu próximo artigo, até que encontrei esse. Está na hora de alertarmos todos os país que na Era da Tecnologia nem tudo são 'flores'.
Parabéns pelo artigo!

Thais Shanti disse...

Parabéns pelo texto tão interessante. Olhar nos olhos de um animal é essencial para que o ser humano perceba que toda a vida é sagrada. O respeito pelos animais, pelas plantas e pela Mãe Natureza é uma lição a ser aprendida pela nossa sociedade.

ESCOLA MUNICIPAL MURILLO GARCIA MOREIRA disse...

A natureza nos ensina todos os dias. A cada estação aprendemos coisas novas e, anualmente, tudo se repete... Onde mais podemos aprender de forma tão natural e sincera?

Germano, obrigado pelo artigo. Divulgarei a mensagem na coluna que escrevo mensalmente. Abraço a todos da equipe do rã-bugio.

Ênio.

ESCOLA MUNICIPAL MURILLO GARCIA MOREIRA disse...

A natureza nos ensina todos os dias. A cada estação aprendemos coisas novas e, anualmente, tudo se repete... Onde mais podemos aprender de forma tão natural e sincera?

Germano, obrigado pelo artigo. Divulgarei a mensagem na coluna que escrevo mensalmente. Abraço a todos da equipe do rã-bugio.

Ênio.

daiane.vieira02 disse...

Realmente é inaceitável que ocorra este tipo de coisa nos dias atuais que tanto se fala em proteção ao meio ambiente.
Cada vez mais válido é o ditado popular que fala que ninguém cuida do que não conhece, portanto, o que deveria estar acontecendo é que os pais deveriam estar incentivando seus filhos a um contato mais próximo com a natureza e não o distanciamento por medo dos perigos que ela pode trazer.
Como exemplo do que foi exposto é que pode-se observar que pessoas que tem um contato mais direto com a natureza possuem uma qualidade de vida bem melhor do que outros.
Essa é minha humilde opinião sobre o assunto apresentado.

André Luiz Bussacro
Joaçaba - SC

Regis Mesquita disse...

O contato com a natureza também libera o corpo para interagir, propiciando um novo tipo de aprendizado que se baseia na sensorialidade.

Ficar sentado na cadeira por horas possui óbvias limitações.

Parabéns!

Regis Mesquita - Psicologia Racional
http://www.psicologiaracional.com.br/

Katia Baeta disse...

Sou arte educadora e concordo com a pesquisa descrita no blog.Dou aula de arte quase sempre fora da sala de aula.E sinto através dos comentários que é mais prazero, além do mais a criatividade fica á solta,como eles sentem em comunhão com a NATUREZA E TODO ESTE MEIO-AMBIENTE MARAVILHOSO QUE NOS É OFERECIDO TODOS OS DIAS.
PARABÉNS

angela_fantin disse...

Obrigada pela interessante matéria.
Sim a natureza é um calmante barato,sem custos,ela nos mostra valores culturais e morais meio que esquecidos por muitos,além de sairmos de um ambiente poluído,estressante que é a cidade grande,as quais temos que nos preocupar com a demanda de pessoas,ruídos,correria,violência..;e hoje com toda modernidade e tecnologia é importante pessoas que trabalham e se esforçam colocando em prática ensinamentos que venham engrandecer o futuro de nossas crianças e jovens!!
Obrigada por sempre manter-me informada,parabéns pelo trabalho de vcs!!
Fiquei feliz com essa boa notícia!!
Abraços!!

Esperança disse...

Germano,

Parabéns por este espaço cheio de luz.

abraços do hospital espiritual do mundo

claudia cristina vasquez rivadeneyra disse...

este blog me gusta mucho ya que nos muestra la naturaleza como la que hay en la selva. nos enseña a valorarla, cuidarla;y a no maltratarla. así que personas de todo el mundo cuiden su naturaleza porque de aquí a pocos tiempos esta desaparecerá y si la conservamos esta seguirá existiendo.

Vândalo Verde disse...

Olá,
Sou do blog Vândalo Verde (vandaloverde.blogspot.com), de Curitiba, e estou conhecendo seu blog agora. Muito bom, parabéns!!
Já incluí vocês na nossa listagem de blogs mais lidos, gostaria, se possível, que conhecesse o nosso espaço.
Um abraço e até logo